NEMATOIDES

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NEMATOIDES

Mensagem  Admin em Dom Ago 07, 2016 12:59 am




Raízes de repolho com formação de galhas (A e B); Sintomas causados por nematoides em cenouras (C e D).
Fonte: Prof. Dr. Mário Inomoto, ESALQ/USP.


Os nematoides são responsáveis por até 20% de perdas na produção de hortaliças no mundo e apresentam crescentes infestações nas lavouras e prejuízos aos produtores, diminuindo a qualidade da cultura e o lucro da produção. Parasitam várias partes das plantas, desde raízes, tubérculos e folhas dependendo da susceptibilidade das variedades cultivadas, sendo possível a permanência do nematoide em ciclos seguidos da cultura.
São parasitas de diversas espécies de plantas, causando deformações nas raízes e formando galhas que se caracterizam por inchaços arredondados em partes das raízes, podendo variar de acordo com o gênero do parasita, condições do solo, cultivar e idade da planta (Figura 1). O ataque de nematoides pode ser confundido com sintomas de deficiências nutricionais nas plantas, chegando a apresentar, em casos severos, murchas, diminuição de crescimento e amarelecimento das folhas devido à dificuldade da planta em absorver água e nutrientes. Se a infestação ocorrer em raízes ou tubérculos, como a cenoura e batata, os danos irão afetar diretamente a comercialização do produto, devido à deformação da parte comestível, diminuindo a qualidade e valor comercial.
O gênero Meloidogyne, também conhecido como Nematoide-das-Galhas, ataca principalmente hortaliças folhosas e se tornou o maior problema dos produtores brasileiros, apresentando alta incidência no campo, podendo ser disseminado através do transplantio de mudas ou materiais propagativos infectados, água de irrigação, máquinas e implementos agrícolas infestados ou substrato contaminado. Ocorrem geralmente nas regiões do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. As fêmeas depositam seus ovos no solo na forma de uma massa gelatinosa e depois da eclosão, as larvas se deslocam no solo até entrar em contato com a raíz da planta, onde começam a se alimentar, provocando o aparecimento das galhas, o encurtamento das raízes mais curtas, dificultando a absorção de água e nutrientes. Em solos arenosos os danos ocasionados nas plantas são mais graves devido à maior aeração presente, o que proporciona maior movimentação e desenvolvimentos dos nematoides.

Nos cultivos de folhosas e tubérculos o nematoide-das-lesões-radiculares (Pratylenchus penetrans) causam grandes danos econômicos, afetando principalmente a alface e a batata, causando a morte das raízes, que apresentam finas lesões amarronzadas, podendo ocorrer nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do país. Em alfaces, que podem apresentar redução de crescimento, amarelecimento e formação de cabeças pequenas, inviabilizando sua comercialização.

Nas culturas do alho e da cebola, o nematoide Ditylenchus dipsaci causa muitos danos e se mostra frequente no Sudeste e Sul do país, afetando principalmente a haste e o bulbo das culturas, que apresentam sintomas típicos de amarelão caracterizado pela intensa coloração amarelada do produto final, inviabilizando o plantio e consumo. Já no Nordeste do país, ocorre o nematoide-da-casca-preta, Scutellonema bradys, cansando maiores danos em inhame, que apresenta uma necrose na superfície inviabilizando o consumo e a exportação.

Existem vários métodos que podem ser adotados para o controle de nematoides a fim de minimizar os prejuízos e impactos negativos causados às áreas infestadas, dentre eles, podem ser utilizados métodos preventivos, utilização de cultivares resistentes, rotação de culturas, alqueive, solarização, produtos químicos e algumas medidas alternativas de controle.

A prevenção é a melhor forma de controle e também a mais importante e deve ser adotada com o objetivo de impedir a entrada dos nematoides na área. A escolha do local de plantio deve ser feita com cuidado, evitando solos muito arenosos e pobres em matéria orgânica, assim como áreas sujeitas à secas prolongadas, pois são fatores que podem aumentar os danos causados pelo parasita.

Sementes e mudas devem ser sadias e provenientes de locais certificados, evitando implantações em épocas quentes e com maior ocorrência de chuvas, pois nessas condições o nematoide se multiplica com maior facilidade. O substrato ou solo utilizado deve ser esterilizado antes do preparo de mudas, principalmente de alface, berinjela, pepino, pimentão e tomate.

A água utilizada na irrigação das hortaliças também representa uma porta de entrada para os nematoides, pois podem levar partículas de solos contaminados para outras áreas. Não é recomendado o cultivo de hortaliças em áreas marginais a rios, córregos e canais, assim como a utilização de águas advindas de plantação com infestações ou reaproveitamento de lavagens de tubérculos e raízes. O produtor deve realizar periodicamente análises nematológicas da água utilizada e fazer a limpeza de recipientes e canais de irrigação.

A prevenção também se baseia no impedimento da entrada de equipamentos agrícola que possam estar contaminados, assim como a lavagem desses equipamentos e seus pneus, após o uso no campo e antes de serem reutilizados em novas áreas, eliminando partículas contaminadas aderidas ao material. Para a eliminação de ovos que podem persistir após a lavagem, deve-se aplicar nos equipamentos uma mistura de água e hipoclorito de sódio a 5%, atingindo todas as partes do implemento ou trator, podendo utilizar baldes e esponjas para facilitar o procedimento.

O produtor também pode optar como forma de prevenção a implantação de plantas antagônicas próximas aos canteiros de produção, pois causam efeitos inibitórios aos nematoides, dificultando o desenvolvimento da praga até a fase adulta, podendo agir também como atrativos para o nematoide, que após infectar a planta, não conseguirá completar seu ciclo de vida, por não conseguir formar as galhas para sua alimentação. Além disso, podem ser utilizadas como cobertura ou adubo verde, sendo incorporadas ao solo, auxiliando nas condições físicas e químicas da área.

No caso de cultivos protegidos, os trabalhadores devem realizar a pré-limpeza dos calçados em um pedilúvio instalado na entrada da estufa contendo cal hidratada. Além disso, a circulação de animais domésticos na área de cultivo deve ser evitada, impedindo a movimentação de solos infestados de um local para outro.

O método mais viável de controle é a utilização de cultivares resistentes, que previnem a multiplicação dos nematoides em seus tecidos, sendo relativamente de baixo custo e não prejudicial à saúde humana, havendo comercialmente diversas hortaliças com resistência aos nematoides, como por exemplo, o tomateiro, tanto para processamento industrial como para mesa, cultivares de batata, de alface, couve-flor, couve, mostarda preta, repolho e alho que possuem de alta a média resistência, principalmente ao nematoide das galhas.

Outro método de controle utilizado é a rotação de culturas, prática que se baseia na produção alternada de diferentes hortaliças na mesma área e época do ano, como por exemplo, a batata cultivada no inverno deverá ser substituída no mesmo período do ano seguinte pela cenoura. No pousio, período de intervalo do cultivo entre as duas hortaliças, pode ser cultivada espécies de gramíneas ou leguminosas, desde que não sejam hospedeiras de nematoides ou outra praga de difícil controle. Em áreas infestadas com M. incognita, a rotação de cultura ou o pousio da área pode ser feita através da implantação de amendoim (Arachis hypogeae), crotalárias (exceto Crotalaria juncea), mucunas (Mucuna pruriens), braquiárias (Brachiaria decumbens e B. ruziziensis) e mamona (Ricinus communis), pois estas espécies apresentam eficiência na redução e controle dos nematoides.

O produtor deve se atentar aos restos culturais deixados na área de todo tipo de cultivo, seja ele contaminado ou não, devendo sempre ser retirado após a colheita, amontoando e queimando-os para eliminação de futuros focos de infecção, não devendo ser incorporados, por inviabilizar outros métodos de controle, pois os nematoides alojados nos tecidos tornam-se protegidos da ação de nematicidas, por exemplo.

A técnica do alqueive também pode ser utilizada como controle e consiste em deixar o terreno limpo durante 90 dias, sem cultura ou plantas invasoras que possam hospedar nematoides. Devem ser realizadas arações, gradagens e capinas em intervalos de 20 a 30 dias durante os três meses, afetando o nematoide através da exposição à luz solar, pois suas membranas são sensíveis ao sol. Geralmente é realizada em pequenas áreas, e sua eficiência depende do tempo de exposição do solo, temperatura e umidade, que devem ser altas. No entanto, possui inconvenientes de afetar também outros microrganismos presentes no solo, como os inimigos naturais, além de poder causar a erosão do solo.

A utilização de princípios químicos para o controle dos nematoides pode ser feito através da imersão das sementes e estruturas propagativas em soluções químicas antes do plantio, geralmente utilizando hipoclorito de sódio, ou também pelo tratamento de solo com a aplicação de nematicidas registrados no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), a base de carbofuran. No cultivo do alho, por exemplo, o controle de Ditylenchus dipsaci pode ser feito através da imersão do bulbo na água por 4 horas e depois em solução de hipoclorito de sódio a 1% por mais 4 horas e, posteriormente ser lavado em água corrente por 15 minutos ou então em solução com abamectina na dosagem de 250 ml/100 litros de água, com imersão de 4 horas.

O tratamento do solo com princípios químicos deve ser adotado somente quando há uma grande infestação, de difícil controle devido ao alto custo de operação, poluição ao meio ambiente e eficiência relativa, pois apesar de ser um controle rápido, é temporário, e pode ocorrer reinfestações drásticas pela resistência do nematoide ao produto. O nematicida deve ser aplicado 15 dias antes da implantação da cultura em áreas com histórico de ciclos sucessivos de infestação. Em culturas já estabelecidas no campo não é recomendada a aplicação de produtos, pois o nematoide se protege dentro das galhas nas raízes, não sendo atingido pelo produto, diminuindo a eficiência da aplicação.

Os nematoides se desidratam facilmente, pois a cutícula do seu corpo é muito sensível ao dessecamento do solo. Dessa forma, o produtor pode optar pela solarização do solo para eliminar a incidência de nematoides, que consiste na utilização de plásticos de polietileno transparentes para cobrir a área de cultivo no pré-plantio em períodos de altas temperaturas por 4 a 5 dias, não devendo ser realizada em dias nublados pela insuficiência da radiação e calor. Antes da solarização pode ser feito o revolvimento do solo por subsolador, arado e grade para expor as camadas internas do solo a altas temperaturas.

A adubação é uma medida de controle ao nematoide utilizada após o estabelecimento da cultura no campo, podendo ser nitrogenada ou através de matéria orgânica. A adubação nitrogenada consiste na aplicação de sulfato de amônio, ureia ou nitrocálcico, para melhorar o vigor da planta e estimular a regeneração das raízes novas que auxiliam a planta, podendo tolerar a formação das galhas. A adubação orgânica melhora a estrutura do solo e pode ser feita através de esterco de gado ou de galinha, tortas oleaginosas, bagaço de cana ou outros materiais orgânicos, devendo ser esterilizados e aplicados ao lado das linhas de cultivo, evitando o contato com o colo da planta.

Outras alternativas para o controle de nematoide são a utilização de inimigos naturais e extratos vegetais. O controle biológico pode ser realizado através de fungos, bactérias, ácaros e outros organismos, principalmente os fungos como Arthrobotrys spp. e Paecilomyces lilacinus, que possuem estruturas especializadas para a captura dos nematoides, e as bactérias, como Bacillus spp. e Pasteuria penetrans, que mostram ser eficientes na predação contra espécies de nematoides, porém estão sendo mais estudadas em campo, pois sua eficiência diminui quando comparada aos estudos em laboratórios. Os extratos naturais possuem a função de proteger as plantas contra o ataque de patógenos, por formarem novos compostos que os microrganismos não conseguem degradar, podendo funcionar como nematicida e sendo adquirido comercialmente pela sua boa eficiência, pois possui rápida degradação e baixa estabilidade dos compostos, podendo ser prejudicada a qualidade do controle.

Para o controle eficaz do nematoide é fundamental a realização do monitoramento da área através de amostragens de solo para verificar sua ocorrência, assim como a espécie que está afetando a área e se o nível populacional é alto o suficiente para causar prejuízos econômicos. Dessa forma, o produtor poderá adotar o manejo integrado mais conveniente para seu caso, levando em consideração o custo, cultura, solo e clima da região.



Fontes consultadas
BAPTISTA, M. J.; SOUZA, R. B.; PEREIRA, W.; CARRIJO, A.; VIDAL, M. C.; CHARCHAR, J. M. Solarização do solo e biofumigação no cultivo protegido de tomate. Horticultura Brasileira, 24, p. 47-52. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/hb/v24n1/a10v24n1.pdf>. Acesso em: 4 ago. 2015.

Embrapa. Ocorrência e controle de nematoides em hortaliças folhosas. Circular Técnica 89; ISSN 1415-3033. Versão Eletrônica; Nov/2010. Disponível em: <http://www.cnph.embrapa.br/paginas/serie_documentos/publicacoes2010/ct_89.pdf>. Acesso em: 4 ago. 2015.

LOPES, C. A.; CHARCHAR, J. M. Nematoides. Brasília: Embrapa, Ageitec. Disponível em: <http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/tomate/arvore/CONT000fa2qor2t02wx5eo01xezlsjlpfb6q.html>. Acesso em: 4 ago. 2015.

NEVES, W. S.; PARREIRA, D. F.; LOPES, E. A.; GIARETTA, R. D. Nematoides em hortaliças: sintomas, disseminação e principais métodos de controle. Circular Técnica 108; ISSN 0103-4413. Versão Eletrônica, Out/2010. Disponível em: <http://www.cecs.unimontes.br/index.php/pt/component/k2/nematoides-em-hortalicas-sintomas-disseminacao-e-principais-metodos-de-controle.html>. Acesso em: 4 ago. 2015.

RIBAS, R. G. T.; JUNQUEIRA, R. M.; OLIVEIRA, F. L.; GUERRA, J. G. M.; ALMEIDA, D. L.; ALVES, B. J. R.; RIBEIRO, R. L. D. Desempenho do Quiabeiro (Abelmoschus esculentus) consorciado com Crotalaria juncea sob Manejo Orgânico. Disponível em: <http://www.ia.ufrrj.br/ra/artigos/38_63.pdf>. Acesso em: 4 ago. 2015.

SANTOS, P. L.; PRANDO, M. B.; MORANDO, R.; PEREIRA, G. V. N.; KRONKA, A. Z. Utilização de extratos vegetais em proteção de plantas. Universidade Estadual Paulista, Botucatu.  Disponível em: <http://www.conhecer.org.br/enciclop/2013b/CIENCIAS%20AGRARIAS/utilizacao%20de%20Extratos.pdf>. Acesso em: 4 ago. 2015.


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